História da Minha Vida

0.0.1 – A Juventude de Meus Pais

Meus pais sempre viveram muito perto um do outro.

No Porto bem típico, numa zona de ilhas (eram os apartamentos de antigamente, uma entrada e ao longo de um acesso, geralmente rectilíneo, que levava às várias casas, onde o convívio e não só, eram privilegiados). A minha mãe Primavera viveu sempre numa destas ilhas, na Rua de Silva Porto, nº 91 casa 1. Esta ilha ainda existe e o meu tio Manuel vive lá, bem por trás do Centro Hípico!

O meu pai Miguel nasceu a 27 de Dezembro de 1929 e viveu na Rua do Monte Cativo, o nº da porta já não me recordo, ali para os lados da Ramada Alta. Este local, que já na época estava muito degradado (ainda me lembro de passar lá umas 2 ou 3 vezes; era bem miúdo, no tempo em que a minha avó Olívia ainda era viva!) já não existe. Deu lugar, com toda a certeza, a mais uma casa que ficou edificada sobre um conjunto de “vivências e memórias” do meus avós paternos e meu pai!

Pelo relatos de meu pai Miguel, ele não guarda grandes recordações dessa época. As dificuldades da família Rocha eram bastantes; a minha avó Olívia já consumida pelo alcoolismo e depois pela doença que a levaria precocemente à morte! O meu avô João, sempre com os seus esquemas para conseguir dinheiro, quer através do trabalho honesto na construção civil, quer através de outros esquemas que podemos considerar inocentes nos tempos que correm. Eram esquemas relacionados com a igreja, com o organizar de peditórios e outros que, segundo o meu pai eram uma importante fonte de receitas para o lar dos Rochas! Resulta daqui talvez os anticorpos que o meu pai Miguel acumulou em relação à igreja e aos peditórios em geral; ele que quase sempre, desde que tenho memória, recusou dar seja que tipo de esmola fosse a que tipo de pedinte se tratasse.

Recordo bem das histórias que ele me contava! Quantas vezes repetidas por ele, sempre que vinha à baila, a justificação de uma situação de penúria, logo ele insistia nesta:

– Quantas vezes tinha fome e ia até às traseiras do Quartel General na Praça da República e juntamente com outras pessoas, aguardava pelo fim da refeição dos tropas na esperança que tivesse sobrado alguma comida! Tinham por hábito distribuir os restos pela população que entretanto se aglomerava ali com o intuito de serenar o apetite. E assim muitas vezes lá comia uma sopita e satisfazia a fome!

Talvez por estas dificuldades todas, o meu pai Miguel sempre quis estudar e sair daquele tipo de vida e daquelas privações. Segundo ele foi o padrinho que lhe pagou os estudos do curso industrial de Debuxo de Soares dos Reis em regime nocturno! Durante o dia já trabalhava numa fábrica têxtil, como ajudante de Afinador (Fábrica dos Ingleses!). Rapidamente chegou a Afinador e com a dedicação ao trabalho que ele sempre teve, subiu rapidamente na hierarquia e tornou-se, por onde quer que andasse a trabalhar, numa pessoa quase imprescindível! Sempre o admirei por este facto e pelas muitas vezes que lhe ouvi as histórias de comportamentos para com a chefia, acabei por “digerir” e assimilar muitos desses comportamentos. O bichinho do empreendedorismo pelo qual fui “mordido”, penso eu começou nessa altura com essas histórias!

O meu gosto pelas pedaladas e bicicletas também deve ter resultado da transmissão dos genes de meu pai! Quando era ainda um jovem, o meu pai saía bastante de bicicleta e gostava muito de pedalar! Dizia ele, que algumas vezes tinha que ter cautelas redobradas nessa saídas dada a sua condição física; um corpo bastante magro e sem grandes reservas! Foi aliás essa condição física que o “salvou” de cumprir o Serviço Militar Obrigatório. Conta ele que durante a inspecção militar, o graduado enfermeiro que estava a avaliar a condição física dos potenciais magalas, chegou junto do seu corpo despido e dando uma palmada no seu rabo, o instruiu: – Tu vais mas é para casa comer a sopa!!

Quanto à minha mãe Primavera não tenho tanto para contar. A sua data de nascimento foi a 1 de Outubro de 1935! Ela nunca falou muito da sua infância a não ser que era uma rapariga que ajudava muito em casa (não teria muita alternativa!). Na escola, segundo ela, nunca gostou muito e tinha algumas dificuldades na leitura e nas contas de aritmética. Foi uma infância perfeitamente normal e anónima!

Naqueles tempos a vida corria tão sossegada e particular sem grandes eventos e comemorações. As dificuldades económicas eram enormes e por isso relatar as vivências do dia a dia era uma tarefa quase impossível. O que posso relatar é tão simplesmente aquilo que me recordo das conversas da minha mãe e da minha avó Maria!

Tal como hoje, as diferenças entre as diversas famílias existiam e condicionavam o desenvolvimento dos jovens. Enquanto o meu pai Miguel e a sua família passavam privações e alguma fome, a minha mãe Primavera apesar de tudo, tinha sempre comida em cima da mesa. O facto do meu avô Adão ser um profissional das carnes (Cortador de Carnes!) fez com que nunca houvesse falta de comida, principalmente carne! Ainda me lembro, de em casa da minha avô Maria, ela fazer para mim e meu irmão, lanches de um bifinho na sertã com um ovo a cavalo! Hummm… recordo-me bem do cheiro a alho e do bife acabado de fritar! Que divinais aqueles lanches eram!

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